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Compaixão é diferente no mindfulness – entenda e veja seus fundamentos



Costuma-se dizer que mindfulness e a compaixão são as “duas asas do pássaro da sabedoria”. Entretanto, devido às definições mais frequentemente achadas em nossos dicionários, muitas vezes se confunde compaixão com “sentimento de comiseração e lástima por quem sofre desgraças”, o que acaba gerando confusão e preconceito em
relação ao tema.

Tal visão da compaixão é radicalmente diferente da usada em mindfulness (na qual se pressupõe que a compaixão é um sentimento entre iguais) e tampouco coincide com os conceitos mais predominantes na psicologia contemporânea.

Uma das definições científicas mais aceitas é a de Goetz e colegas: “o sentimento que surge ao se presenciar e reconhecer o sofrimento do outro, que implica um desejo ou motivação de ajudar”. Envolveria a “empatia” pelo sofrimento alheio, ou seja, a capacidade de sentir e entender as emoções e o mal-estar de outra pessoa. O mesmo
conceito se aplica à “autocompaixão”, trocando o “outro” por “mim mesmo”.

Essas definições implicam no reconhecimento do sofrimento como parte da vida de todos nós, o que chamamos de “humanidade compartilhada”, e seria como um antídoto ao estado habitual de nossa mente, que privilegia a (auto)crítica e culpa excessivas, o que acaba gerando mais sofrimento frente ao mal-estar.

Fundamentos biológicos da compaixão

Paul Gilbert, um dos maiores pesquisadores no tema, descreve três subsistemas neurobiológicos chaves no funcionamento do ser humano, que descrevo a seguir, e que explica o papel biológico da compaixão:

O sistema de satisfação, calma e segurança

Constituiria a base biológica do sistema de “apego”, “apreço”, ou “vinculação” com os outros seres humanos (ou mesmos outros seres vivos, como os animais de estimação). Esse sistema nos proporciona segurança, paz e alegria. É ativado nas relações de vínculo – na criança, por exemplo, quando é abraçada pelos pais e se sente segura; e, no adulto, ao desenvolver relações sociais satisfatórias, significativas e colaborativas.

É a base do sentimento de compaixão. A atividade deste sistema está relacionada a neurotransmissores do tipo opiáceos endógenos (endorfinas) e com a oxitocina. Esses neurotransmissores fazem com que nos sintamos tranquilos e seguros. Por exemplo, os níveis de oxitocina na circulação sanguínea dos pais estão relacionados à qualidade e quantidade de contato afetivo que mantêm com os filhos.

O toque suave desencadeia a secreção de oxitocina em animais e em seres humanos. Por isso é usado para acalmar crianças, bem como nos exercícios de compaixão, em forma de um gesto compassivo como o “auto-abraço”.

 

O sistema de ameaça e proteção

Permite detectar ameaças do mundo externo e encarrega-se de produzir emoções como o medo, a ansiedade, a raiva e a aversão. Entretanto, também pode ser ativado por estímulos internos, como o medo do futuro (de perda), a autocrítica ou as ruminações mentais.

De fato, embora o ser humano atual não possua predadores ou ameaças externas relevantes, este circuito mantém-se fortemente ativado por um ambiente social vivido como ameaçador, por exemplo.

 

O sistema de conquista e recompensa

Esse é o sistema que nos incita a buscarmos alimentos, procurarmos locais seguros para nos protegermos, e encontrarmos as necessidades básicas para a vida. O desenvolvimento das sociedades humanas permitiu que as necessidades de sobrevivência estejam amplamente superadas (pelo menos nos países mais desenvolvidos socialmente), motivo pelo qual os objetos externos (dinheiro, por exemplo) são utilizados para a obtenção de coisas para além do básico, muitas vezes relacionadas ao status social e às fontes externas de felicidade (que chamamos de
felicidade hedônica).

Como base na ideia desses 3 sistemas, podemos dizer que a sociedade atual se caracteriza por um grande aumento da atividade tanto do sistema de ameaça (associado à autocrítica e à vergonha) como do sistema de conquista (correlacionado com o consumismo e à busca de uma posição social), ao passo que o sistema da satisfação e
da calma encontra-se hipoativo.

Assim, o treino da compaixão permitiria ativar o sistema de calma e satisfação, o único capaz de se contrapor e equilibrar os outros dois, e de nos desenvolver um tipo de felicidade mais sustentável, que chamamos de eudaimônica, baseada nas relações sociais saudáveis e de vinculação.

 

Vamos praticar?

Referência:
Demarzo & Garcia-Campayo. Manual Prático de Mindfulness: curiosidade e aceitação.
Editora Palas Athena, 2015.

Para saber mais sobre mindfulness:

www.mindfulnessbrasil.com (Mente Aberta – Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde – UNIFESP)

www.webmindfulness.com (WebMindfulness – Grupo de Pesquisa Coordenado pelo Prof. Javier García-Campayo – Universidad de Zaragoza, informações em espanhol)

www.umassmed.edu/cfm (Centro de Meditação “Mindfulness” na Medicina, Universidade de Massachusetts, Estados Unidos, informações em inglês)

 

Fonte – UOL

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