Mindfulness Brasil

Conheça um poema “mindful” útil para lidarmos com esses tempos difíceis



Por Marcelo Demarzo para o Viva Bem

 

Uma maneira de levarmos mindfulness para nosso dia a dia, em especial as atitudes “mindful” relacionadas à atenção plena (que nos ajudam a lidar melhor com as dificuldades próprias da vida), é ler poemas ou poesias que nos ensinam ou nos incentivam a novas posturas frente à vida.

Eles têm em geral uma linguagem mais acessível ou agradável, inspirando e nos motivando. É uma forma lúdica e muito efetiva de aprendermos mindfulness, e acaba funcionado como uma “prática informal”.

Um dos principais e mais conhecidos poetas que abordaram mindfulness em seus textos (existem muitos) é o poeta da tradição Sufi conhecido como Rumi, que viveu há muitos séculos atrás, mas cujos poemas continuam muito atuais, em especial em tempos de Coronavírus.

Um de seus poemas, “A Casa de Hóspedes”, é particularmente útil, pois fala de um tema chave para lidarmos com tempos e emoções difíceis, que é a “Aceitação” (diferente de “passividade”, como veremos depois).

Abaixo eu apresento umas de suas versões (tradução livre):

 

“O ser humano é uma casa de hóspedes.

Toda manhã uma nova chegada.

A alegria, a depressão, a mesquinharia, como visitantes inesperados.

Recebe e entretém a todos

Mesmo que sejam uma multidão de dores

Que violentamente varrem a tua casa e tiram os teus móveis.

Ainda assim trata os teus hóspedes honradamente

Eles podem estar a limpar-te para um novo prazer.

O pensamento escuro, a vergonha, a malícia, encontra-os à porta sorrindo.

Agradece a quem vem, porque cada um foi enviado como um guardião do que está por vir.”

 

Aceitação

Esse poema fala então da atitude de “Aceitação” no ponto de vista de mindfulness. Dentre os conceitos relacionados à mindfulness, a ideia de aceitação não tem nada a ver com o senso comum de “passividade”, e sim com a possibilidade de nos aproximarmos da realidade das coisas e dos fenômenos como eles realmente são, ou seja, sem interferência de juízos prévios de valor ou expectativas, mantendo uma perspectiva mais ampla, menos reativa.

A hipótese é que a partir da “aceitação” da realidade como ela realmente é, temos condições de tomar decisões mais sábias e conscientes, saindo do “automatismo”.

Assim, nem nos “afundando” nos problemas (quando ficamos muito tristes ou paralisados), e nem buscamos soluções irrealistas, que às vezes pioram a situação (como por exemplo, abusar de álcool tentando esquecer o problema).

Realidade

No poema, Rumi fala de nos abrirmos à realidade como ela é, mesmo que seja uma “multidão de dores que violentamente varrem” a nossa “casa”, o que podemos correlacionar com o mal-estar ou estressores inerente à vida (pequenos ou grandes, como o que estamos vivendo agora).

Ao entendermos que a realidade pode se apresentar de várias maneiras, e que muitas delas estão fora de nosso controle (como uma pandemia), ou não correspondem às nossas expectativas, aprendemos a conviver melhor com tudo o que se apresenta à nossa “casa”, e a possibilidade de sermos mais assertivos aumenta, preservando nossa saúde mental.

A ideia é que sempre haverá ou um espaço de livre-arbítrio (escolha) ou de aprendizagem (“eles podem estar a limpar-te para um novo prazer”), ou seja, abrindo novas possibilidades muitas vezes ocultadas pelos “automatismos” dos padrões antigos de enxergar ou fazer as coisas.

Como não precisaremos mais nos “esforçar irracionalmente” em “controlar todas as coisas”, podemos tomar mais decisões com base no que vai emergindo na realidade das coisas, e assim teremos uma menor sensação de estresse, e desfrutaremos de mais momentos de felicidade. Poderemos claro, fazer planos, mas não esperaremos que eles se realizem da maneira exata que planejamos, o que é um alívio.

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